José Vaz Sampaio Espinheira — As lembranças de uma neta

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A memória é algo fascinante: uma lembrança puxa outra. Há pouco tempo, conversando com uma prima sobre minha avó Ruth, ganhei no dia seguinte uma fotografia antiga da família. Logo depois, começaram a aparecer no meu Instagram fotos antigas e histórias de Itapetinga. Tudo isso me fez pensar no meu avô, José Vaz Sampaio Espinheira — e percebi que fazia tempo que eu não pensava nele com a mesma frequência de anos atrás, e me dei conta de que já faz mais de quatro décadas que ele nos deixou.
Por isso, hoje, no dia 10 de setembro, quando ele completaria 112 anos, quero deixar esta pequena homenagem. Afinal, eu sei que, assim como eu, há centenas de pessoas que têm histórias para contar sobre meu avô e sobre o quanto ele influenciou a vida daqueles de quem fez parte.
Para mim, ele era meu avô José. Para a cidade que tanto amava, era o Cabeça Branca. Foi sinônimo de presença, generosidade, bondade, dedicação e compromisso com o próximo — características da “genética Espinheira” que me inspiram até hoje. Dizem que ele costumava repetir: “O difícil a gente faz hoje. O impossível demora mais um pouco.”
A infância em Itapetinga
Passei grande parte das minhas férias de São João em Itapetinga, e boa parte da minha infância inesquecível ali se deve à presença constante do meu avô.
Durante a última gestão de meu avô José, minha avó, D. Nana, morava em frente à Prefeitura e, todos os dias, por volta das três da tarde, ela preparava uma bandeja com a merenda dele — ambrosia, doce de sonho, sequilhos, biscoito casadinho — e eu levava essa merenda até o gabinete junto com Maria, da cantina, que já havia passado o café fresquinho. Não importava quem ele estivesse atendendo: a merenda era sagrada, para ele e para os convidados. Hoje entendo que tive uma dose dupla de bênçãos: ser neta de D. Nana e neta de Espinheira.
Guardo também o dia em que Daozinho me buscou no almoço porque meu avô precisava me ver. Cheguei à sede sem entender o motivo, e ele só disse: “Queria lhe dar um beijo na testa e almoçar com você.” Então abaixei minha cabeça para receber meu beijo, sentei-me à mesa da varanda da sede e almoçamos juntos, eu e meu avô. Tenho 90% de certeza de que o almoço foi malassado de carne com farofa e arroz, pois este era a maior especialidade de Ide e a escolha preferida de todos os Espinheira. São lembranças pequenas, mas são justamente essas que ficam para sempre.
Lembro dele pedindo a Liliu, da Olaria, panelinhas e potes de barro para eu vender na minha “loja” durante as férias. Lembro de andar de bicicleta dentro da piscina da Prefeitura numa noite em que ela estava vazia. E, claro, das festas juninas na Sede, com as escolas dançando quadrilha. Lembro de pedir a ele se podia ir ao Armazém de Davi comprar fogos. Lembro das tardes em que ficava sentada no banco do escritório da sede, enquanto ele “despachava” algumas pessoas, seja pela janela, seja pela porta do lado.
Quando todos os netos estávamos na Sede, havia uma regra que ninguém ousava quebrar: banho tomado antes das cinco e meia, horário em que ele chegava em casa. Meu avô também acreditava que um bom copo de abacatada ou um copo de gemada curavam qualquer doença. Confesso que o banho antes das cinco e meia eu quase sempre conseguia cumprir — já dessas bebidas saudáveis dele, sempre me livrei bem, graças a Iraildes, que nos protegia a todo custo e preferia nos alimentar com galinha ao molho pardo no almoço, mingau de milho à tarde e leite morno com Nescau e sequilhos antes de dormir. A vida na Sede com meu avô era um verdadeiro conto de fadas.
Meu avô faleceu em 1983, pouco depois de terminar sua última gestão. Às vezes penso que foi o coração partido por não poder concluir o que sonhava para sua cidade. Eu ainda era muito jovem, mas lembro nitidamente daqueles dias — foi como se o mundo tivesse virado de cabeça para baixo. Uma verdadeira cratera foi aberta no centro do nosso universo e nunca mais foi fechada. A cicatriz ainda dói, 43 anos depois. Acho que é por isso que, por tanto tempo, evitei pensar nele.
O prefeito que passei a conhecer depois
Por muitos anos, minhas lembranças eram só do meu avô José. Com o tempo, comecei a entender também a dimensão do homem público que ele foi. Pessoas como Iraildes, Maria, Daozinho, Zenaide da prefeitura, Lucas e minha tia Maria Pizzani mantiveram essa memória viva, sempre com uma história sobre o prefeito Espinheira.
Essas histórias também apareciam nas idas diárias ao comércio com minha avó Nana — no banco, na cooperativa de leite, na Loja Rezende, na farmácia do Walter, na feira. Em cada lugar, alguém lembrava de uma obra que ele havia deixado. Foi assim que percebi: a história dele não pertence só à nossa família. Pertence também a Itapetinga.
O legado
José Espinheira deixou marcas em Itapetinga através de obras, projetos e ações que marcaram a infraestrutura da cidade e ajudaram-na a crescer: 16 realizações na educação, 3 na saúde, incluindo a construção e todo o equipamento do Hospital do Cristo, a Matinha, o Estádio Municipal, a concha, além de obras de infraestrutura como o SAAE, que seguem parte da história da cidade. Tudo isso, entre tantas outras, foi fruto da visão e da capacidade de execução do meu avô, que, com absoluta certeza, tinha um amor e um compromisso inegociável por sua cidade e seu povo.
Mas, para mim, uma das maiores provas do seu amor por Itapetinga foi a generosidade com que doou terrenos em benefício da cidade e de seus moradores — áreas que hoje abrigam o ITC, a própria Prefeitura, o Hotel Goitacaz, o Hospital Santa Maria, o Abrigo Laura Carvalho, a Maçonaria, além de lotes doados a famílias para que construíssem suas casas.
Essas histórias ainda precisam ser contadas. É por isso que escrevo este texto: para resgatar memórias, ouvir quem viveu aquela época e descobrir fotos, documentos e histórias que talvez ainda estejam guardados em gavetas e álbuns de família. Quero conhecer histórias sobre meu avô que talvez eu nunca tenha ouvido — porque memória também é patrimônio.
112 anos
Meu avô, José Vaz Sampaio Espinheira, faria 112 anos no dia 10 de setembro. Foram três gestões à frente de Itapetinga, marcadas, para quem conviveu com ele, por dedicação, compromisso e desejo de contribuir para o progresso da cidade. A cidade de Itapetinga conheceu e conviveu mais de perto com meu avô do que todos os filhos e netos dele juntos. Talvez com a exceção de meu pai, Adriano Espinheira, que escolheu estar sempre por perto.
Eu tive o privilégio de conhecê-lo como avô. Itapetinga conheceu o prefeito, o homem público, o Cabeça Branca. Hoje, tantos anos depois de sua partida, talvez seja hora de juntar essas duas memórias: a minha, de menina, e a de uma cidade que também foi dele — porque uma cidade que preserva sua história também honra quem ajudou a construí-la.
E eu, como neta, tenho muito orgulho de dizer: José Vaz Sampaio Espinheira foi meu avô. E o maior legado que ele deixou em mim foi, acima das lembranças, o exemplo de bondade, presença, generosidade, dedicação, compromisso com a excelência no que faz e uma vontade inabalável de ajudar o próximo e contribuir para o bem do lugar onde vivemos.
Um agradecimento especial a Mauricio Gohmes, que apoiou e topou publicar esta homenagem ao meu avô, e que, com tanto empenho e dedicação, também escreveu e tornou possível a publicação do livro Espinheira, o Mito.
Adriana Ruth Espinheira




